A edição de 2026 do Oscar, realizada neste domingo (15), teve Uma Batalha Após a Outra como o grande vencedor, com seis estatuetas, sendo três entregues nas mãos do diretor Paul Thomas Anderson — Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.
As estatuetas foram as três primeiras da carreira de Anderson, que já havia recebido oito indicações anteriormente, mas sempre saiu de mãos vazias dos auditórios da Academia. Os prêmios conquistados na noite são “cerejas no bolo” da carreira do ótimo diretor, mas escancaram a fraqueza da temporada de prêmios de 2026.

Em Uma Batalha Após a Outra, Anderson surfa na crise política vivida atualmente pelos Estados Unidos com uma adaptação do livro Vineland, de 1990, mas explora uma narrativa recheada de estereótipos. O protagonista Bob, que rendeu uma indicação ao prêmio de Melhor Ator a Leonardo DiCaprio, soa como uma ridicularização de figuras revolucionárias que transforma o filme em uma falsa polarização que vilaniza os dois lados do espectro político, colocando a produção “em cima do muro” quanto ao combate à onda de extrema-direita que passa pelos EUA. A posição é reafirmada em entrevistas de Paul Thomas Anderson, que se esquiva de críticas mais incisivas à situação vivida no país (e no mundo).
A participação de DiCaprio, apesar da indicação ao prêmio, sempre é ofuscada pelo elenco de apoio do filme, o ponto mais forte da produção — que rendeu a estatueta da inédita categoria de Melhor Escalação de Elenco (Best Casting). Desde Teyana Taylor, que tem menos de vinte minutos de tela como Perfídia, a companheira do protagonista, a Sean Penn, que venceu a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, o elenco do filme parece sustentar o personagem de DiCaprio a todo momento, que custa a funcionar como um fio condutor da história. A falta de brilho do protagonista evidencia um grande problema do filme, que poderia custar os prêmios caso enfrentasse concorrentes que não levaram estatuetas em anos anteriores.
Benicio del Toro, que tem ainda menos tempo de tela, é o ponto que obtém maior sucesso em imprimir uma carga de humor ao longa. Também indicado à categoria de Melhor Ator Coadjuvante, o ator porto-riquenho tem muito mérito em sobrepor alguns estereótipos colocados ao redor de seu personagem pelo próprio roteiro, que parecem a visão média do estadunidense em relação aos latinos, e funciona perfeitamente como uma transição do início ao meio da narrativa. O filme ainda conta com a estreante Chase Infiniti, que acumulou indicações e prêmios ao longo da temporada, mas não foi lembrada na premiação. Além das cinco estatuetas já citadas, o filme ainda levou o de Melhor Edição.
Outro dos prêmios mais importantes da noite, o de Melhor Ator — que gerava expectativas aos brasileiros pela indicação de Wagner Moura — foi conquistado por Michael B. Jordan por sua atuação como os gêmeos Smoke e Stack em Pecadores, longa dirigido por Ryan Coogler. Apesar de diferentes, os dois personagens não divergem tanto a ponto de demandar um grande alcance de atuação do ator. A atuação dialoga com o bom nível apresentado pelo filme, mas passa longe de ser uma das mais memoráveis da história. Além da premiação de Michael B. Jordan, o filme levou a categoria de Melhor Roteiro Original e duas categorias técnicas, as de Melhor Trilha Sonora e Melhor Fotografia.
O filme entrou na premiação como o mais indicado da história, com 16 categorias. São duas indicações a mais do que o revolucionário Titanic e três a mais do que filmes históricos como E o Vento Levou e Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. É uma marca que fica para a história, mas volta a escancarar o nível mediano da temporada. A chuva de indicações parece premiar a originalidade do filme — que é louvável, diante da escassez de boas ideias que Hollywood enfrenta, especialmente relacionada ao boom de filme de heróis que dominou a indústria na última década — mas parece pouco para um prêmio que carrega toda a credibilidade de uma história centenária. Apesar de ótimo, Pecadores não entrega um nível tão incontestável a ponto de sustentar tal recorde — o mesmo vale para Uma Batalha Após a Outra, que tem valências, mas não o suficiente para ser o grande vencedor de uma noite do maior palco do cinema internacional.
O destaque dos filmes que, juntos, somam 10 estatuetas, é só mais um capítulo da queda que Hollywood enfrenta nos últimos anos, seja com as 14 indicações do amplamente criticado (e também recheado de estereotipação de latinos) Emília Perez, os prêmios a Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo — uma espécie de “delírio coletivo” de um mundo pós-pandêmico — ou a estatueta de Melhor Ator a Rami Malek pelo questionável Bohemian Rhapsody, todos símbolos da decadência da indústria hegemônica americana — até mesmo Emilia Pérez, que, apesar de estrangeiro, conta com um elenco cheio de americanos — que pode forçar a Academia a olhar para além das fronteiras do país. Que a próxima temporada traga boas notícias!
