O mês de outubro marca a “spooky season”, a época dos filmes de terror. Com o halloween se aproximando, a DC aproveita a data para trazer uma aposta ousada: Cara-de-Barro, longa protagonizado por um vilão “lado-B” das histórias do Batman.
Matt Hagen (Tom Rhys Harries) é um ator indicado ao Oscar que vê sua carreira derreter quando, em pleno auge, tem seu rosto desfigurado por um gângster de Gotham City. Desesperado, Hagen busca por uma tecnologia inovadora que pode recuperar sua face, e se vê disposto a enfrentar riscos físicos e psicológicos para recuperar sua vida profissional.
Mergulhado em um body horror digno de clássicos como A Mosca (1986), o filme dirigido por James Watkins (Não Fale o Mal) busca extrair ao máximo a transformação corporal do personagem após o tratamento experimental. Somos apresentados a cenas extremamente gráficas desde a sequência inicial do filme, quando o protagonista tem seu rosto desfigurado, com momentos agoniantes recheados de efeitos práticos, que chocam o espectador.

Usando a vingança como um fio condutor da narrativa, Cara-de-Barro une a transformação corporal ao mental do personagem (ou a falta dele) e mostra sua escalada até o colapso completo. No meio do processo, Hagen desenvolve uma paixão platônica por Caitlyn Corr (Naomi Ackie), médica responsável pela terapia celular à qual ele é exposto, que se vê cada vez mais culpada pelo descontrole da sua criação, como no clássico Frankenstein, de Mary Shelley — um lugar comum de produções do gênero, como o recente A Substância (2024).
Apesar de adaptar HQs da DC e fazer parte do chamado DCU (o universo cinematográfico da editora), o filme funciona muito bem como uma história individual. Se não levasse o nome do vilão, o filme ainda seria um ótimo exemplar de como fazer um body horror. Mas o terror corporal não é o único elemento do gênero que ronda a história, que apela para alguns jumpscares “gratuitos”, talvez dispensáveis, que parecem tentar dar alguma tração ao início da história.
Já embalada, a narrativa não perde tempo explicando as habilidades desenvolvidas pelo protagonista, tratando de forma fluida a adaptação do personagem a esses poderes. A fluidez se aplica também à toda a jornada do colapso de Hagen, que usa de uma atmosfera de terror psicológico para rumar a uma sequência final recheada de plot twists.
Tom Rhys Harries dribla uma possível impopularidade do vilão, que tem sua principal representação fora dos quadrinhos no jogo LEGO Batman, imprimindo um carisma que habilita pontuais alívios cômicos, que funcionam muito bem como um contraste ao lado sombrio que ronda a história.
Cara-de-Barro é uma grata surpresa, que explora o gênero de terror de forma muito criativa e foge de clichês que tanto desgastaram as adaptações de quadrinhos nos últimos anos. Uma aposta certeira da DC e do universo encabeçado por James Gunn. Cara-de-Barro estreia nos cinemas do Brasil nesta quinta-feira (22).